Maio Amarelo: Não Foi Acidente, foi crime

por Thais Lancman

O nome do movimento Não Foi Acidente não é um jogo de palavras acidental. Um primeiro passo é começar a chamar as mortes no trânsito de crimes. Enquanto conversei com Nilton Gurman, um dos idealizadores do movimento, ele me corrigiu quando falei em “acidentes de trânsito” pois, para ele, a partir do momento que o motorista desrespeita leis, ele “chama para si a responsabilidade”.

“São crimes com dolo eventual”, explica Gurman, que passou a atuar em prol de um trânsito mais seguro depois de perder um sobrinho em 2011, atropelado enquanto andava na calçada, por uma motorista que trafegava em alta velocidade. Ao lado de familiares que vivenciaram perdas em crimes semelhantes, hoje ele atua no Não Foi Acidente e na consolidação do Maio Amarelo, tornando o mês central na divulgação de campanhas e atividades sobre o tema.

O Maio Amarelo se soma a iniciativas como o Outubro Rosa, mês de conscientização a respeito do câncer de mama. A ideia de tratar os crimes de trânsito como problemas de saúde também não é por acaso. São tantas vítimas que a OMS está atenta ao tema, formando a parceria que levou Gurman e outros ao Não Foi Acidente. No Brasil, são de 16 a 20 mil por ano, entre mortes e casos com mutilações, números equivalentes a uma epidemia.

Nilton Gurman acredita que a educação seja um dos pilares para mudar essa realidade. Entretanto, ele aponta que são os mais jovens os principais atores na mudança de consciência dos mais velhos. “A geração à qual eu pertenço (Nilton tem 56 anos) tem resistência e acha que é tudo bem dirigir alcoolizado, acima do limite de velocidade”, diz. Para ele, isso faz parte de uma cultura antiga, com origem nos anos 1920, de quando possuir um carro significava fazer parte de uma elite e o motorista se sentia no direito de trafegar à vontade, esperando que os outros abrissem espaço para ele passar. “Acho que vai levar muitos anos para isso mudar”, destaca.


trailer do documentário feito pelo Não Foi Acidente, o filme completo está disponível aqui

O idealizador do Não Foi Acidente lembrou da resistência de muitos paulistanos à redução do limite de velocidade em avenidas e nas marginais. Favorável à medida, ele lembrou que ela não surgiu “do nada”, e sim segue o modelo já implantado em cidades mundo afora. Depois de São Paulo, Curitiba também mudou a velocidade máxima permitida e Gurman espera que demais cidades façam o mesmo. “Pode fazer a diferença entre ferir e matar”, argumenta.

Quando perguntei a Gurman qual deveria ser a situação ideal em relação às vítimas no trânsito, ele citou a Suécia como país exemplar. Lá, exista a política de zero mortes, que envolve uma série de medidas para extinguir vítimas fatais nesses casos. Para isso, o país realizou mudanças nas exigências dos carros comercializados, como airbags externos e freios automáticos, e maior controle das rodovias. Mais informações podem ser obtidas no site oficial do governo sueco sobre o assunto (em inglês).

 

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